Coluna · Hérnia de disco
Minha ressonância mostrou hérnia de disco. E agora?
Quem mostra o caminho é o estudo do seu sintoma.

Em 30 segundos
- Hérnia no exame é muito comum, inclusive em quem não tem dor. Alteração de exame é como ruga.
- Boa parte das hérnias diminui sozinha com o tempo.
- A ressonância mostra a estrutura. Ela não diz qual exercício fazer, com que carga, em que ângulo.
- Procure o movimento que deixa você se mexer com mais conforto, e o que piora. É ele que mostra o caminho.
Na maioria dos casos, uma hérnia na ressonância não é motivo para medo, nem sinal de que você vai precisar operar. Hérnia no exame é muito comum, inclusive em quem não sente nada1. Alteração de exame é como ruga: aparece com o tempo e não quer dizer que vai ficar ruim. Quem mostra o caminho é o estudo do seu sintoma: o que piora, o que alivia, como a dor reage a cada movimento. É por aí que começa a avaliação de osteopatia e fisioterapia, em Florianópolis ou por teleconsulta: procurando os eixos de movimento que aliviam a dor e os que pioram.
O que é hérnia de disco, em palavras simples?
Entre uma vértebra e outra existe o disco, que funciona como um amortecedor. Na hérnia, uma parte do disco sai do seu lugar. O laudo usa nomes diferentes conforme o formato: abaulamento, protrusão, extrusão. Os nomes assustam. Sozinhos, eles não dizem quanto vai doer, nem o que fazer.
Às vezes a pessoa chega com o laudo na mão. Às vezes chega só com a dor, já querendo um exame, e pergunta: isso é uma hérnia? A primeira coisa que eu digo é que isso é normal: a partir de uma certa idade, muita gente tem.
Depois, ao longo dos testes, ela percebe que não só é normal como começa a ter controle. Sabe o que melhora, sabe o que piora. E assume o controle da situação. Com o controle, ela se acalma. A hérnia deixa de ser uma coisa que ela não pode controlar, que deixa o corpo em alerta o tempo todo, na insegurança. O movimento está na mão dela: o corpo é ela que vai pilotar. Isso acalma muito mais do que qualquer outra coisa.
Por que tanta gente tem hérnia e não sente nada?
Porque é parte de viver. Em pessoas sem nenhuma dor, a protrusão do disco aparece em cerca de 3 em cada 10 aos 20 anos e em mais de 4 em cada 10 aos 80. O abaulamento passa de 3 em cada 10 aos 20 anos para mais de 8 em cada 10 aos 801. São como rugas por dentro.
E o que piora não é a ruga. É o que se faz com ela, como o sol do meio-dia para a pele.
Eu sei disso também na pele. Jovem, ouvi que a minha coluna era “de um homem de 70 anos”. Eu tenho uma hérnia. Com essa mesma coluna eu treino jiu-jitsu, agacho com carga, pratico esporte em nível alto e crio dois filhos, sem dor. O exame não mudou. Mudou o que eu aprendi a fazer com o meu corpo. É a minha história, não uma previsão para o seu caso: cada coluna pede a sua avaliação.
“O exame não mudou. Mudou o que eu aprendi a fazer com o meu corpo.”
A hérnia diminui sozinha?
Muitas vezes, sim. Numa revisão de estudos que repetiram o exame em pessoas tratadas sem cirurgia, a hérnia diminuiu em 7 de cada 10 extrusões e em 4 de cada 10 protrusões2.
Parece contraditório, mas as hérnias que mais saem do lugar são as que mais tendem a diminuir2. E o tamanho da hérnia no primeiro exame não mostrou relação com a evolução da dor3. O que o laudo descreve como maior não é, por isso, mais grave.
Se o exame não define, o que define?
A ressonância mostra a estrutura. Ela não diz qual exercício fazer, com que carga, quantas repetições, em que ângulo. Quem responde isso é o estudo do seu sintoma: o que piora, o que alivia, como a dor reage a cada movimento testado no consultório.
A ressonância é como uma fotografia. O movimento que você faz no consultório é a filmagem. Na filmagem, a gente vê o que acontece ao longo do tempo. A fotografia é só um corte, e esse corte não ajuda a decidir o que fazer e o que não fazer em relação ao movimento. Por isso se chama exame complementar. Costuma-se dizer que a clínica é mais importante. Eu vou além: saber observar e analisar a evolução é o mais importante. É isso que a gente faz.
A imagem e a dor nem sempre andam juntas. Num estudo com pessoas tratadas por ciática causada por hérnia, a ressonância feita um ano depois mostrava hérnia em 35% de quem tinha melhorado e em 33% de quem não tinha. O exame não separou um grupo do outro4.
Quase todo mundo acha que o exame vai trazer segurança. Os estudos mostram outra coisa: quem faz ressonância logo no início, sem sinal de alerta, não melhora mais rápido5, e tem mais chance de acabar em procedimentos invasivos que nem sempre entregam resultado6. O exame tem a sua hora. A orientação do Colégio Americano de Médicos é indicar exame de imagem só quando há perda de força grave que vai piorando, ou sinais de uma causa grave por trás, como os sinais de alerta mais abaixo7. Fora desses casos, o exame de rotina não traz benefício e pode trazer prejuízo. Ele também entra quando se discute uma cirurgia. E, quando ele é feito, o trabalho é ver se o que aparece na imagem combina com o que você sente.
Você pode continuar com o exame alterado e ficar muito melhor. O que a gente tem que alcançar é uma função melhor: voltar a caminhar, voltar a agachar, voltar a dormir sem dor, voltar a fazer reforço muscular. Ou seja, ter uma vida do jeito que você quer. Esse é o nosso objetivo.
Com hérnia de disco, posso fazer exercício?
Se a dor não aumenta, é sempre melhor fazer do que não fazer. Comece pelo que não dói e poupe a região que dói, não o corpo todo. Depois, num segundo momento, desafie o seu corpo aos poucos: exponha-o gradualmente aos movimentos que levavam à dor. Ele tende a se adaptar.
Quem tem hérnia pode fazer musculação, agachar com carga, correr, jogar? Sim. E quem decide não é nenhum profissional, nem a própria pessoa. É o corpo, pelos seus sinais. Ela mesma percebe: não tenho dor aqui, preciso desse movimento para jogar, e a dor não piora quando eu faço. Se não piora na hora e não piora depois, já dá para começar.
Se piora, talvez o movimento precise de algum ajuste. Senão vira uma bola de neve: joga, piora, joga, piora, e a situação fica mais delicada. O objetivo é encontrar o jeito em que a pessoa faz o movimento e não piora, até ela se adaptar completamente e readquirir aquela função sem medo de jogar.
Hérnia de disco precisa de cirurgia?
A maioria não precisa. A gente só pensa em operar seguindo a lógica das diretrizes: primeiro o tratamento conservador, de alta qualidade, específico e bem ajustado à pessoa8. A cirurgia segue sendo um caminho possível, e dá para decidir com calma, na hora certa.
A cirurgia retira a compressão, mas não muda o estilo de vida. Se eu estava sedentário e continuei sedentário, se me sobrecarregava e continuei me sobrecarregando, o problema pode voltar, às vezes em outro nível da coluna.
Aqui a gente não perde tempo. Se for cirúrgico, você vai saber rápido, e a gente já te prepara para a cirurgia. E, mesmo indo para a cirurgia, você ganha: chega com menos dor, menos inchaço e mais força. Leia mais em dor ciática: o que é, o que fazer na crise e quando operar.
Quando a hérnia pede atenção imediata?
Na dúvida, pode vir. Na consulta, eu avalio esses sinais e, se algum pede outra investigação, encaminho para o médico certo.
Perguntas frequentes
A hérnia de disco some sozinha?
Muitas vezes ela diminui com o tempo, e as que mais saem do lugar são as que mais tendem a diminuir. E muita gente vive sem dor com uma hérnia no exame.
Abaulamento, protrusão, extrusão: qual é pior?
O nome no laudo assusta mais do que deveria. Abaulamento e protrusão são muito comuns em pessoas sem dor, e o tamanho da hérnia não mostrou relação com a evolução. O que define o caminho é como a sua dor se comporta.
Preciso repetir a ressonância para ver se a hérnia diminuiu?
Na maioria dos casos, não. Um ano depois do tratamento, a ressonância não conseguiu separar quem tinha melhorado de quem não tinha. O que mostra a evolução é o seu sintoma.
Com hérnia de disco posso fazer exercício?
Se a dor não aumenta, é sempre melhor fazer do que não fazer. Comece pelo que não dói e poupe a região que dói, não o corpo todo. Depois, exponha o corpo aos poucos aos movimentos que levavam à dor: musculação, agachamento com carga, corrida e esporte podem voltar. Se a dor não piora na hora nem depois, dá para seguir.
Hérnia de disco precisa de cirurgia?
A maioria não precisa. O que vem primeiro é um tratamento conservador bem feito, ajustado à pessoa. Se for cirúrgico, você vai saber rápido, e chega à cirurgia mais preparado.
Posso começar o tratamento antes de ir ao médico? Preciso de pedido médico?
Sim, pode começar. A avaliação é marcada direto, sem pedido médico. Numa revisão de 21 estudos, o acesso direto ao fisioterapeuta teve resultados clínicos semelhantes aos de quem passou antes pelo médico, com menos exames e remédios e sem sinal de mais riscos11. Traga a sua ressonância: ela é lida junto com a avaliação clínica.
Qual a diferença entre osteopatia e fisioterapia no tratamento?
Na consulta eu uso as duas juntas. A osteopatia olha o corpo inteiro e a vida que ele leva: o que piora, o que alivia, sono, trabalho. A fisioterapia cuida da progressão do movimento: qual exercício, com que carga, em que ritmo. A ideia é você sair sabendo o que fazer e por quê.
O atendimento é por convênio?
O atendimento é particular. Alguns planos de saúde reembolsam consultas: vale conferir as regras do seu.
Referências científicas
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- Chiu CC, et al. The probability of spontaneous regression of lumbar herniated disc: a systematic review. Clin Rehabil. 2015;29:184-95. Link
- el Barzouhi A, et al. Prognostic value of magnetic resonance imaging findings in patients with sciatica. J Neurosurg Spine. 2016;24:978-85. Link
- el Barzouhi A, et al. Magnetic resonance imaging in follow-up assessment of sciatica. N Engl J Med. 2013;368:999-1007. Link
- Chou R, et al. Imaging strategies for low-back pain: systematic review and meta-analysis. Lancet. 2009;373:463-72. Link
- Jacobs JC, et al. Observational study of the downstream consequences of inappropriate MRI of the lumbar spine. J Gen Intern Med. 2020;35:3605-12. Link
- Chou R, Qaseem A, Owens DK, Shekelle P. Diagnostic imaging for low back pain: advice for high-value health care from the American College of Physicians. Ann Intern Med. 2011;154:181-9. Link
- Foster NE, et al. Prevention and treatment of low back pain: evidence, challenges, and promising directions. Lancet. 2018;391:2368-83. Link
- Finucane LM, et al. International framework for red flags for potential serious spinal pathologies. J Orthop Sports Phys Ther. 2020;50:350-72. Link
- Henschke N, et al. Prevalence of and screening for serious spinal pathology in patients presenting to primary care settings with acute low back pain. Arthritis Rheum. 2009;60:3072-80. Link
- Fischer M, et al. Systematic review of direct access physiotherapy for musculoskeletal conditions in primary care: consequences for general practitioner workload, resource use, and organisation of care. BMC Prim Care. 2026;27. Link
Quem escreveu
Leonardo Schneider, PhD
Osteopata D.O., fisioterapeuta desde 2009, mestre e doutor em Saúde Coletiva pela UFSC. Atende no Clube ASTEL, sala 7, R. Eduardo Gonçalves d'Ávila, 150, Itacorubi, Florianópolis/SC, e por teleconsulta.
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