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Leonardo Schneider, PhD

Reflexões · Dor e vida

O que a dor mostra sobre o que importa para você

A dor tira coisas da gente. Às vezes é justamente na falta delas que a gente descobre o que importa. E o caminho de volta passa por aí.

Leonardo Schneider, PhDFisioterapeuta e Osteopata · CREFITO-10 nº 136902-FPublicado em 07/10/2026 · 7 min de leitura

Em 30 segundos

  • Toda dor é real, e é sempre uma experiência do corpo e das emoções ao mesmo tempo.
  • Ter dor é diferente de ter sofrimento: o sofrimento é o peso que a dor ganha nos pensamentos.
  • Quando a dor sai da frente, a pergunta muda: o que você vai fazer com o espaço que abriu?

Dói o joelho. Dói a pessoa.

A definição de dor mais aceita no mundo, revisada em 2020 pela Associação Internacional para o Estudo da Dor, diz que ela é uma experiência sensorial e emocional1. Não uma ou outra: as duas, juntas.

Isso não quer dizer que a dor "é da cabeça". Quer dizer que ela acontece numa pessoa inteira, com uma história, um trabalho, um sono, uma família.

Dói o joelho, dói a coluna. Mas às vezes também dói o ser humano: quando ele se afasta de quem é, do que gosta, do que dá sentido aos dias. A dor física é a forma dessa distância que entra pela porta do consultório.

Ter dor e ter sofrimento

É diferente ter dor e ter sofrimento. Dor é física: aperta num lugar, dói. Sofrimento vem com os pensamentos que crescem em volta dela: "nunca vai passar", "nunca mais vou correr", "deve ser algo muito grave". São pensamentos que giram e não levam a nenhum passo.

A pesquisa chama esse giro de catastrofização, e há décadas mostra que ele anda junto com dor mais intensa e mais angústia2. A boa notícia: dá para cuidar dos dois. Do que dói e do peso que a dor ganhou.

Um corpo que espera o perigo

Muita gente chega ao consultório exausta. Não assustada: cansada de tanto pensar na dor. "Já tentei de tudo." É comum o corpo estar em alerta constante, preparado para uma ameaça que já não existe.

Saber o que esperar acalma. Quando a pessoa entende o percurso natural da melhora, inclusive as pioras passageiras, o corpo tende a baixar a guarda. E quando ela descobre um movimento que alivia, um só, começa a ver que tem algum controle. Isso, por si, já traz tranquilidade.

Será que a sua dor de hoje é sobre o que aconteceu, ou sobre o que o seu corpo ainda espera que aconteça?

A dor mostra as ausências

A dor tem um efeito curioso: ela mostra, com muita força, o que ficou faltando. Agora você não pode mais jogar bola, e aí você vê o quanto gosta de jogar bola.

No fundo do poço, a gente separa o que é fútil do que não é. Fica claro: "é isso que eu gosto de fazer". Por isso, na consulta, eu também pergunto do sono, dos planos, do interesse pelas coisas. Não é fugir da dor. Tenho um compromisso com ela: o foco é a dor, e o resto é caminho.

Com a sua licença, a gente deixa uma janela aberta para outros assuntos. Cada momento vivido fora do eixo da dor, uma conversa boa, uma caminhada, um almoço com a família, é um momento em que o corpo sai do modo de alerta. Não é negar a dor. É lembrar o corpo de que ele também sabe fazer outras coisas.

Quando a dor sai da frente

Tem uma pergunta que eu gosto de fazer quando a dor vai diminuindo: e agora que você saiu desse lugar difícil, desse lugar solitário da dor, você está conseguindo ser mais feliz?

Sem dor, sobra atenção para o que é bonito. E a beleza é o que gera interesse pela vida, um interesse que anda em falta. Spinoza ligava a alegria ao aumento da nossa potência de agir. Eu vejo isso no consultório: quanto mais a pessoa se aproxima do que quer e do que considera fundamental, o trabalho, a família, fazer um almoço, criar laços, mais favoráveis ficam as condições para ela ter saúde.

O movimento entra como ponte. Ele ajuda na dor e, com o tempo, costuma ajudar no sono e no humor. Uma grande revisão de 2024, com mais de 14 mil pessoas com depressão, mostrou que caminhar, correr, fazer ioga e treino de força reduzem os sintomas3. Ninguém precisa estar deprimido para aproveitar isso: é o exercício servindo de remédio para o espírito se manter interessado.

Quem atravessa bem a dor quase sempre faz a mesma coisa: volta, com mais vontade, ao que já era seu. Voltar a escrever, voltar a viajar, voltar ao esporte. E muitas vezes sai com mais clareza e mais sensibilidade para a dor do outro.

“Do que a sua dor te afastou? E o que você vai fazer com o espaço que ela deixar?”

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Perguntas frequentes

Se a dor tem a ver com emoção, ela é psicológica?

Não. Toda dor é real. Ela é sempre uma experiência do corpo e das emoções ao mesmo tempo, em qualquer pessoa. Pensamento e emoção podem aumentar ou baixar o volume; não inventam a dor.

Falar da vida na consulta não tira o foco do tratamento?

O foco continua sendo a dor. Sono, rotina, trabalho e interesses entram porque mexem nela, e porque o que você faz fora da consulta pesa mais do que o que acontece dentro dela.

Por que a dor parece pior quando estou estressado ou dormindo mal?

Muita gente percebe isso, e é comum: cansaço e tensão costumam deixar o corpo mais sensível. Por isso o sono e a rotina entram na avaliação.

Isso substitui psicoterapia?

Não. Quando o sofrimento pede, eu oriento a buscar um psicólogo. O que faço é cuidar da dor olhando para a pessoa inteira.

Referências

  1. Raja SN, Carr DB, Cohen M, et al. The revised International Association for the Study of Pain definition of pain: concepts, challenges, and compromises. Pain, 2020. Link
  2. Sullivan MJ, Thorn B, Haythornthwaite JA, et al. Theoretical perspectives on the relation between catastrophizing and pain. Clinical Journal of Pain, 2001. Link
  3. Noetel M, Sanders T, Gallardo-Gómez D, et al. Effect of exercise for depression: systematic review and network meta-analysis of randomised controlled trials. BMJ, 2024. Link

Quem escreveu

Leonardo Schneider, PhD

Fisioterapeuta desde 2009, osteopata, mestre e doutor em Saúde Coletiva pela UFSC. Atende no Itacorubi, em Florianópolis, e por teleconsulta.

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Na consulta, eu escuto a sua, avalio e desenho com você o caminho.