Reflexões · Dor e vida
O que a dor mostra sobre o que importa para você
A dor tira coisas da gente. Às vezes é justamente na falta delas que a gente descobre o que importa. E o caminho de volta passa por aí.

Em 30 segundos
- Toda dor é real, e é sempre uma experiência do corpo e das emoções ao mesmo tempo.
- Ter dor é diferente de ter sofrimento: o sofrimento é o peso que a dor ganha nos pensamentos.
- Quando a dor sai da frente, a pergunta muda: o que você vai fazer com o espaço que abriu?
Dói o joelho. Dói a pessoa.
A definição de dor mais aceita no mundo, revisada em 2020 pela Associação Internacional para o Estudo da Dor, diz que ela é uma experiência sensorial e emocional1. Não uma ou outra: as duas, juntas.
Isso não quer dizer que a dor "é da cabeça". Quer dizer que ela acontece numa pessoa inteira, com uma história, um trabalho, um sono, uma família.
Dói o joelho, dói a coluna. Mas às vezes também dói o ser humano: quando ele se afasta de quem é, do que gosta, do que dá sentido aos dias. A dor física é a forma dessa distância que entra pela porta do consultório.
Ter dor e ter sofrimento
É diferente ter dor e ter sofrimento. Dor é física: aperta num lugar, dói. Sofrimento vem com os pensamentos que crescem em volta dela: "nunca vai passar", "nunca mais vou correr", "deve ser algo muito grave". São pensamentos que giram e não levam a nenhum passo.
A pesquisa chama esse giro de catastrofização, e há décadas mostra que ele anda junto com dor mais intensa e mais angústia2. A boa notícia: dá para cuidar dos dois. Do que dói e do peso que a dor ganhou.
Um corpo que espera o perigo
Muita gente chega ao consultório exausta. Não assustada: cansada de tanto pensar na dor. "Já tentei de tudo." É comum o corpo estar em alerta constante, preparado para uma ameaça que já não existe.
Saber o que esperar acalma. Quando a pessoa entende o percurso natural da melhora, inclusive as pioras passageiras, o corpo tende a baixar a guarda. E quando ela descobre um movimento que alivia, um só, começa a ver que tem algum controle. Isso, por si, já traz tranquilidade.
Será que a sua dor de hoje é sobre o que aconteceu, ou sobre o que o seu corpo ainda espera que aconteça?
A dor mostra as ausências
A dor tem um efeito curioso: ela mostra, com muita força, o que ficou faltando. Agora você não pode mais jogar bola, e aí você vê o quanto gosta de jogar bola.
No fundo do poço, a gente separa o que é fútil do que não é. Fica claro: "é isso que eu gosto de fazer". Por isso, na consulta, eu também pergunto do sono, dos planos, do interesse pelas coisas. Não é fugir da dor. Tenho um compromisso com ela: o foco é a dor, e o resto é caminho.
Com a sua licença, a gente deixa uma janela aberta para outros assuntos. Cada momento vivido fora do eixo da dor, uma conversa boa, uma caminhada, um almoço com a família, é um momento em que o corpo sai do modo de alerta. Não é negar a dor. É lembrar o corpo de que ele também sabe fazer outras coisas.
Quando a dor sai da frente
Tem uma pergunta que eu gosto de fazer quando a dor vai diminuindo: e agora que você saiu desse lugar difícil, desse lugar solitário da dor, você está conseguindo ser mais feliz?
Sem dor, sobra atenção para o que é bonito. E a beleza é o que gera interesse pela vida, um interesse que anda em falta. Spinoza ligava a alegria ao aumento da nossa potência de agir. Eu vejo isso no consultório: quanto mais a pessoa se aproxima do que quer e do que considera fundamental, o trabalho, a família, fazer um almoço, criar laços, mais favoráveis ficam as condições para ela ter saúde.
O movimento entra como ponte. Ele ajuda na dor e, com o tempo, costuma ajudar no sono e no humor. Uma grande revisão de 2024, com mais de 14 mil pessoas com depressão, mostrou que caminhar, correr, fazer ioga e treino de força reduzem os sintomas3. Ninguém precisa estar deprimido para aproveitar isso: é o exercício servindo de remédio para o espírito se manter interessado.
Quem atravessa bem a dor quase sempre faz a mesma coisa: volta, com mais vontade, ao que já era seu. Voltar a escrever, voltar a viajar, voltar ao esporte. E muitas vezes sai com mais clareza e mais sensibilidade para a dor do outro.
“Do que a sua dor te afastou? E o que você vai fazer com o espaço que ela deixar?”
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Perguntas frequentes
Se a dor tem a ver com emoção, ela é psicológica?
Não. Toda dor é real. Ela é sempre uma experiência do corpo e das emoções ao mesmo tempo, em qualquer pessoa. Pensamento e emoção podem aumentar ou baixar o volume; não inventam a dor.
Falar da vida na consulta não tira o foco do tratamento?
O foco continua sendo a dor. Sono, rotina, trabalho e interesses entram porque mexem nela, e porque o que você faz fora da consulta pesa mais do que o que acontece dentro dela.
Por que a dor parece pior quando estou estressado ou dormindo mal?
Muita gente percebe isso, e é comum: cansaço e tensão costumam deixar o corpo mais sensível. Por isso o sono e a rotina entram na avaliação.
Isso substitui psicoterapia?
Não. Quando o sofrimento pede, eu oriento a buscar um psicólogo. O que faço é cuidar da dor olhando para a pessoa inteira.
Referências
- Raja SN, Carr DB, Cohen M, et al. The revised International Association for the Study of Pain definition of pain: concepts, challenges, and compromises. Pain, 2020. Link
- Sullivan MJ, Thorn B, Haythornthwaite JA, et al. Theoretical perspectives on the relation between catastrophizing and pain. Clinical Journal of Pain, 2001. Link
- Noetel M, Sanders T, Gallardo-Gómez D, et al. Effect of exercise for depression: systematic review and network meta-analysis of randomised controlled trials. BMJ, 2024. Link
Quem escreveu
Leonardo Schneider, PhD
Fisioterapeuta desde 2009, osteopata, mestre e doutor em Saúde Coletiva pela UFSC. Atende no Itacorubi, em Florianópolis, e por teleconsulta.
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Cada dor tem uma história.
Na consulta, eu escuto a sua, avalio e desenho com você o caminho.


