Reflexões · Dor e vida
Quando a dor pede uma guinada na vida
A dor limita. E, ao limitar, ela mostra o que está em excesso. Uma pequena mudança, no ponto certo, muda a rota.

Em 30 segundos
- A dor limita, mas também mostra onde algo está em excesso: uma carga, uma postura mantida, um padrão de pensamento ou de comportamento.
- Em muitos casos, o segredo da mudança não está num ajuste grande, mas numa pequena guinada certeira no comportamento.
- Nem sempre a gente sabe o que precisa mudar. Por isso a orientação faz diferença.
A dor limita. E, ao limitar, ela mostra que há lugares na vida em que a gente precisa mudar alguma coisa: uma carga, um estilo, uma expectativa. Em muitos casos, o segredo da mudança não está num ajuste grande, mas numa pequena guinada certeira no comportamento. Uma pequena mudança que acaba levando a uma mudança de rota no percurso da vida. Eu vejo isso acontecer com muitos pacientes, e aconteceu comigo.
Nem sempre a pessoa, olhando para si mesma, consegue identificar esse ajuste. Por isso um outro ponto de vista consegue encontrar o movimento mais eficiente para fazer a diferença.
Não adianta dar murro em ponta de faca
Não adianta dar murro em ponta de faca. Mais do mesmo não vai te levar a um resultado melhor. Só que a própria pessoa, por não conseguir se observar de fora, sem parar para analisar, acaba investindo no mais do mesmo para tentar achar um resultado. E o mesmo já não está funcionando. Tanto é que ela está com dor.
Às vezes a gente tem que mudar uma carga, um estilo, uma expectativa: o que eu quero do esporte, o quanto eu consigo trabalhar seguido. Será que isso é produtivo?
Será que eu não estou botando todas as minhas fichas numa mesma questão? Geralmente a gente está exigindo demais de alguma coisa. Daí vem a sobrecarga, o desbalanceamento, e nem a própria pessoa percebe. Um excesso de carga, de uma postura mantida, de exigência num treino, de expectativa de retorno num determinado aspecto, pode estar deixando vazios outros aspectos que também trariam resultado. Um excesso de um certo padrão de pensamento ou de comportamento.
Isso é muito comum hoje, na sociedade da performance. Tem aparecido cada vez mais gente que aplica conhecimento e se esforça por um resultado específico, mas atira demais para um lado: se esforça muito num aspecto e deixa outros mais fragilizados. Só que a pessoa não percebe, porque o foco dela está todo naquele objetivo que já estabeleceu.
E o corpo diz: você precisa do contraponto, do outro lado. Você precisa balancear a sua vida nas suas diferentes variáveis.
“A vida não é só trabalho, nem tampouco só prazer.”
Imagine uma vida sem dor
Imagine o contrário: você sem dor nenhuma. Muitas pessoas iam seguir fazendo mais do mesmo, infinitamente. E é claro que isso é inviável. Às vezes, se não fosse a dor, o aviso viria por outro caminho: um problema no coração, até um infarto.
O corpo é orgânico, os sistemas são todos integrados. Na nossa ignorância humana, achamos que priorizando apenas um aspecto conseguiríamos resolver todos os problemas: dinheiro, carreira, estética, entre outros. Mas a vida não é tão simples assim. Ela é complexa, cheia de variáveis.
E às vezes a dor vem quase nos obrigar a mudar de rumo, para ter uma vida bem vivida. Ela praticamente nos obriga, porque inviabiliza seguir da mesma maneira. E é aí que nasce a riqueza. A gente não sabe disso quando está passando pela dor. Mas, ajustando o que precisa ser ajustado, o desfecho no longo prazo é muito melhor do que seria se você seguisse na conjuntura sobrecarregada que levou à dor.
Ajustar as velas
Pense num veleiro. Quando o vento muda, você ajusta as velas. Muda um pouquinho o ângulo e, num percurso longo, chega a um lugar completamente diferente. É esse ajuste fino que leva lá.
Quando a dor aparece, é hora de ajustar as velas, para que os esforços e as demandas da vida sejam mais bem recebidos.
No consultório, a gente vê isso no cuidado ao longo do tempo. É algo quase imperceptível para a pessoa, porque ninguém consegue enxergar uma projeção tão longa. Mas, quando eu recomendo um comportamento, a minha preocupação é sair da fase aguda e, ao mesmo tempo, aprender ao máximo com ela. Aprender com a dor faz com que você tenha o controle das velas e do leme, de tal maneira que consiga aproveitar os ventos da vida, as intempéries, as forças que te puxam, e chegar num lugar completamente diferente.
O que a gente não sabe que precisa mudar
Muitas vezes a gente não conhece, não sabe o que precisa mudar. É por isso que um ponto de vista externo consegue trazer luz às questões que nós, do ponto de vista interno, não conseguimos organizar ou observar.
Na consulta, eu procuro entender a vida da pessoa naquele momento de dor. A partir disso, a gente faz pequenos ajustes, pequenas reflexões importantes. E a pessoa começa a assumir um estilo de vida que faça sentido para ela: que continue dando sentido ao jeito que ela deseja viver, que ela pode, que ela consegue, dentro das suas limitações. E que ainda por cima transcenda a dor. Superar o problema, integrar, entender.
Aqui no consultório, o meu foco é a dor. Mas uma das grandes soluções é integrar a pessoa com a vida bem vivida que ela tem, que ela pode ter, que ela pode desenvolver.
Comigo também foi assim
A dor me ajudou a conquistar um pouco mais de sabedoria (pelo menos, essa é a minha impressão). Eu vivia um estilo de vida que precisei ter sabedoria para mudar. Isso acontece com muitos pacientes: aprender a viver, e a viver bem. Contei essa história aqui.
A dor veio para ensinar?
Eu nem gosto muito de dizer isso. No consultório eu não falo, porque soa como chavão. E não é conversa de coach. Mas às vezes é uma verdade: a dor vem e acaba ensinando alguma coisa.
É muito interessante, como clínico, ver isso com clareza: as pessoas mudando alguns estilos, sendo mais felizes depois de ter tido uma dor. É uma satisfação clínica muito grande quando a pessoa começa a refletir sobre a própria vida e me diz: puxa, agora eu estou vivendo melhor.
Perguntas frequentes
Toda dor quer dizer que eu preciso mudar de vida?
Não. Às vezes, sim: a dor mostra uma sobrecarga que pode ser modificada. E, muitas vezes, o ajuste é pequeno, uma guinada certeira. A avaliação ajuda a descobrir o que pesa no seu caso.
Então o tratamento é só conversa?
Não. O foco é a dor: avaliação completa, terapia manual e exercício. As reflexões entram junto, como parte do cuidado. E o compromisso central é sempre acelerar ao máximo a sua melhora.
Quem escreveu
Leonardo Schneider, PhD
Osteopata D.O., fisioterapeuta desde 2009, mestre e doutor em Saúde Coletiva pela UFSC. Atende no Clube ASTEL, sala 7, R. Eduardo Gonçalves d'Ávila, 150, Itacorubi, Florianópolis/SC, e por teleconsulta.
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Minha história
De quase engenheiro a osteopata, passando por nove anos de dor na coluna.
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