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Leonardo Schneider, PhD

Reflexões · Saúde e hábitos

Por que a gente sabe tanto sobre saúde e vive tão mal?

Informação sobre saúde nunca sobrou tanto. O que costuma faltar é outra coisa: perceber o próprio corpo e escolher poucos passos que caibam na sua vida.

Leonardo Schneider, PhDFisioterapeuta e Osteopata · CREFITO-10 nº 136902-FPublicado em 07/10/2026 · 5 min de leitura

Em 30 segundos

  • Saber o que fazer e conseguir fazer são coisas diferentes. Quase metade de quem pretende se exercitar não chega a fazer.
  • O que você não percebe, você não muda. Antes do protocolo, vem a percepção.
  • Poucos básicos, bem feitos e repetidos, costumam render mais do que muita coisa ao mesmo tempo.

Nunca se soube tanto

Tem aplicativo para contar passos, relógio que mede o sono, exame para quase tudo e um vídeo novo sobre saúde a cada minuto. E, mesmo assim, muita gente vive cansada, dorme mal, sente dor e não consegue passar um dia sem ansiedade.

Eu trabalho todo dia com corpo, com dor, com movimento. E o que eu vejo não é falta de informação. É gente que sabe tudo sobre calorias e treino e não consegue colocar isso na própria vida.

Informação não é conhecimento

Informação é saber que exercício faz bem. Conhecimento é saber o que fazer quando a dor vem, e o que não fazer. Conhecimento é o que liberta.

A distância entre uma coisa e outra é grande. Uma revisão que juntou dez estudos, com quase 4 mil pessoas, encontrou uma diferença de cerca de 46% entre a intenção de se exercitar e o que as pessoas de fato fizeram1. Quase metade.

Ou seja: não é só preguiça, nem falta de caráter. Para muita gente, saber não basta. Falta outra coisa.

O que você não percebe, você não muda

Antes de mudar um hábito, é preciso enxergá-lo. Onde o seu corpo segura a tensão? Em que hora do dia a dor aparece? O que alivia? Muita gente sabe responder sobre o corpo do vídeo, do influenciador, do vizinho, e não sabe responder sobre o próprio.

Parte do meu trabalho é trazer luz para esse escuro: ajudar a pessoa a perceber o básico do próprio corpo, aprender a lidar com ele e, com o tempo, dominar. Uma das minhas funções é fazer você pensar como um fisioterapeuta para o seu caso.

E o corpo ajuda nisso, porque ele não nega a informação. Caminhe dez minutos e repare como você está antes e depois. Isso é um dado. E é seu.

A tecnologia não vai nos salvar sozinha

A gente busca solução nos lugares errados. O exame, o aparelho, o suplemento novo parecem mais modernos do que uma conversa. Eu sei que não é muito fashion um profissional que escuta e pergunta da vida inteira: do sono, do trabalho, da rotina. Mas, em boa parte das dores do dia a dia, quem resolve não é a máquina. É o que você passa a fazer. O comportamento vai nos salvar.

Isso não é ser contra exame. O exame tem a sua hora: quando a avaliação levanta uma suspeita que só ele confirma. É colocar cada coisa no seu lugar.

Menos é mais (quando é o menos certo)

A tentação é mudar tudo de uma vez: dieta nova, treino novo, meditação, horário novo de dormir. Dura uma semana.

Uma ação com intensidade e profundidade vale mais do que várias dispersas. O desafio é descobrir qual é o "menos" de cada um: a pequena peça que, quando mexe, puxa as outras. Não é fazer coisas complexas. É a soma de básicos bem aplicados, repetidos e acompanhados de perto.

A régua é sua

Tem mais uma armadilha: a régua. A rede social mostra o corpo, a rotina e a produtividade de outra pessoa, em outra vida, com outro tempo. Procuro ser o mais realista possível. Não vou destruir a vida de ninguém para correr atrás de um sonho de coach.

Ajustar a própria expectativa ao que cabe na sua vida, agora, já é parte do cuidado.

“Talvez a pergunta certa não seja o que fazer, mas por que a gente não faz o que já sabe.”

Perguntas frequentes

Então o problema é falta de força de vontade?

Raramente é só isso. A distância entre querer e fazer é comum e está bem documentada. Costuma ajudar mais ajustar o tamanho do passo e o lugar dele na rotina do que se cobrar mais.

Preciso de mais exames ou aplicativos para cuidar melhor da saúde?

Eles ajudam em situações específicas, mas não substituem perceber o próprio corpo. Na maior parte das dores do dia a dia, o que dá segurança é uma avaliação cuidadosa, não a quantidade de exames.

Por onde começar, se eu quero mudar muita coisa?

Por uma só. De preferência a que puxa as outras: às vezes é o sono, às vezes é voltar a caminhar, às vezes é sair um pouco da cadeira durante o dia.

Como a osteopatia e a fisioterapia entram nisso?

Na consulta eu uso as duas juntas. A osteopatia olha o corpo inteiro e a vida que ele leva: o que piora, o que alivia, sono, trabalho. A fisioterapia cuida da progressão do movimento: qual exercício, com que carga, em que ritmo. A ideia é você sair sabendo o que fazer e por quê.

E se o que você deveria fazer não for, ainda, o que você consegue fazer? Talvez o primeiro passo seja descobrir a diferença.

Referências

  1. Rhodes RE, de Bruijn GJ. How big is the physical activity intention-behaviour gap? A meta-analysis using the action control framework. British Journal of Health Psychology, 2013. Link

Quem escreveu

Leonardo Schneider, PhD

Fisioterapeuta desde 2009, osteopata, mestre e doutor em Saúde Coletiva pela UFSC. Atende no Itacorubi, em Florianópolis, e por teleconsulta.

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Cada dor tem uma história.

Na consulta, eu escuto a sua, avalio e desenho com você o caminho.