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Estalar a coluna faz mal? O que o estalo é, e o que não é
Não faz mal. E também não é obrigatório. O barulho não diz se a manipulação funcionou, nada “volta para o lugar”, e o efeito que importa acontece no sistema nervoso, não no osso.

Em 30 segundos
- O estalo é gás que se forma dentro da articulação quando as superfícies se afastam. Não é osso saindo nem voltando para o lugar.
- Mobilizar sem estalo dá o mesmo resultado que manipular com estalo, na lombar e no pescoço. O que importa é o estímulo, não o som.
- A manipulação é uma peça do tratamento, com efeito pequeno e de curto prazo. O que segura o resultado é o que você faz depois: movimento, carga, hábito.
“Vai estalar?”
É uma das primeiras perguntas que ouço de quem nunca passou por uma consulta de Osteopatia. E ela chega de dois jeitos.
Tem quem chegue pedindo para estalar. Por trás do pedido, quase sempre, existe uma expectativa de melhora mágica: vai estalar, vai colocar no lugar e vai resolver todo o meu problema. É uma expectativa errada. Uma parte do tratamento é adequar a expectativa à realidade, para a pessoa não se frustrar, porque frustração não ajuda ninguém a evoluir.
E tem quem chegue com medo de estalar. Em geral é a pessoa que tem medo de se mexer, de qualquer jeito. Para ela, a manipulação é um salto brusco demais no estímulo, e eu não começo por aí. Existem vários outros estímulos: mobilizações, depois os próprios exercícios, automobilizações, movimentos que vão tirando o medo do próprio movimento e devolvendo um movimento mais confortável, sem dor.
Para os dois, a resposta é a mesma: estalar não é necessário. Pode ser um recurso que ajuda, mas se você não gosta, não precisa. Os estudos mostram que as mobilizações, movimentos repetidos para ganhar amplitude, dão o mesmo resultado que a manipulação de alta velocidade, aquela que faz o som. Se você gosta e se sente bem, eu uso. Se não gosta, não uso. E quando uso, é com pouco movimento e sem rotações grandes.
O que é o barulho
Durante muito tempo se achou que o estalo era uma bolha de gás estourando dentro da articulação. Em 2015, um grupo canadense filmou articulações dos dedos por ressonância em tempo real enquanto eram tracionadas1. O som aparece no instante em que as superfícies se separam e uma cavidade de gás se forma no líquido da articulação. A cavidade continua visível depois do som. É formação, não explosão.
O que esse filme mostra é mais importante do que parece. Nada quebra. Nada sai do lugar. Nada volta para o lugar. A articulação que estalou é a mesma articulação de antes, com um pouco mais de espaço entre as superfícies por alguns minutos. Nada está fora do lugar. O lugar é o mesmo; o que muda é como o seu corpo está lidando com ele.
E o mito de que estalar os dedos dá artrose? Um estudo com mais de 200 pessoas entre 50 e 89 anos comparou quem tinha o hábito de estalar os dedos por décadas com quem não tinha. A frequência de artrose nas mãos foi igual nos dois grupos2.
Estalou, funcionou?
Na quadra, no vestiário e em muitos consultórios, o estalo virou sinônimo de sucesso: estalou, deu certo; não estalou, não pegou. Dois estudos testaram isso. Em pessoas com dor lombar, o estalo foi percebido em 84% das manipulações, e quem estalou não melhorou mais do que quem não estalou, nem na hora nem semanas depois3. No pescoço, o número de estalos durante a manipulação da coluna torácica não teve relação com a dor, a função ou o movimento dias depois4.
O barulho em si não diz nada. Quem diz alguma coisa é o que acontece com o seu movimento e com a sua dor nos dias seguintes.
O que a manipulação faz, pelo que a ciência sabe hoje
A Osteopatia não é uma técnica. É uma profissão, com um jeito de pensar, que usa técnicas. E as técnicas mudam ao longo do tempo, assim como as explicações. Antigamente se dizia que a manipulação destravava um bloqueio, liberava a circulação, colocava a vértebra no lugar. Hoje a explicação é outra, e eu prefiro contar como é.
O modelo mais aceito descreve a manipulação como um estímulo mecânico breve que provoca uma resposta do sistema nervoso em vários níveis: na região tocada, na medula e no cérebro5. Essa resposta reduz a sensibilidade à dor por um tempo, muda o tônus dos músculos ao redor e, em parte, modula a inflamação local6. Uma imagem que uso, e que é só uma imagem: é como jogar uma pedra num lago parado. A pedra é pequena. O que importa são as ondas, e o que você faz enquanto a água ainda está em movimento.
Isso explica dois achados que surpreenderam muita gente. Primeiro: manipular a vértebra “certa” ou uma vértebra vizinha dá o mesmo resultado7. A precisão milimétrica que se ensinava não se sustenta, e eu deixei essa ideia para trás. A mão do Osteopata não acha um ponto exato; ela entrega um estímulo que o corpo interpreta. Segundo: a expectativa, a confiança no profissional e o ambiente da consulta mudam o tamanho do efeito8. Isso não torna a manipulação “placebo”. Torna a consulta inteira parte do tratamento.
Então o que a mão faz? Tira a rigidez, abre uma janela de menos dor e mais movimento. O que você faz nessa janela é o que decide o resultado.
A manipulação é uma peça. O raciocínio é o que importa.
Com estalo ou sem: o resultado é o mesmo
A maior revisão sobre manipulação na dor lombar crônica, publicada no BMJ em 2019, reuniu 47 estudos e mais de 9 mil pessoas9. A manipulação teve efeito parecido com o dos outros tratamentos recomendados, como exercício, com um ganho pequeno na função. Outra revisão, do mesmo ano, encontrou efeito pequeno a moderado tanto para a manipulação quanto para a mobilização, e julgou as duas seguras10. No pescoço, a revisão Cochrane concluiu que várias sessões de manipulação e várias sessões de mobilização dão resultados semelhantes em dor, função e satisfação11.
Quando você lê que a manipulação “não é melhor que placebo”, está lendo sobre uma técnica isolada, testada sozinha, num recorte de pessoas. Ninguém é tratado por uma técnica isolada. Na dor crônica quase nada tem efeito gigante como um antibiótico numa infecção; o resultado vem de somar vários efeitos pequenos: entender, aliviar, mover, fortalecer, dormir melhor. Efeito pequeno é efeito. O que não funciona é esperar que uma peça sozinha faça tudo.
Quando eu não estalo
Na cervical alta, as duas primeiras vértebras do pescoço, eu geralmente não manipulo. Uso mobilização. Técnicas de alta velocidade só entram quando está claro que a mobilização não está dando conta e o eixo de movimento já foi testado e não produz sintoma. Mesmo aí, com parâmetros pequenos, movimentos bem curtos.
Sobre o risco mais temido, o derrame por lesão de uma artéria do pescoço: é um evento muito raro. O maior estudo populacional, com mais de 100 milhões de pessoas-ano, encontrou a mesma associação entre esses derrames e consultas com quem manipula o pescoço e entre esses derrames e consultas com o médico de família12. A explicação mais provável é que a pessoa já estava com a artéria lesionada, sentia dor no pescoço e dor de cabeça, e procurou ajuda. É exatamente por isso que a triagem vem antes de qualquer técnica: a história, a pressão, os sinais que não combinam. Dor de cabeça nova e muito diferente do seu padrão não se manipula; se investiga.
E ao longo do tratamento, a manipulação é cada vez menos usada. Na primeira consulta ela pode entrar. Na terceira, quase não. O que me importa é você se apropriar do seu movimento, porque quem mantém o resultado é o hábito, não a minha mão.
Perguntas frequentes
Estalar a coluna sozinho faz mal?
Não há evidência de que o estalo em si machuque a articulação; nos dedos, décadas de hábito não aumentaram a artrose. O problema é outro: estalar a própria coluna dá um alívio de minutos e cria a necessidade de repetir. Quem precisa estalar a cada hora está adiando o que resolve, que é ganhar movimento e força na região.
Osteopata estala?
Às vezes. A manipulação com estalo é uma das técnicas da Osteopatia, não a principal. No meu consultório uso mais mobilização, técnicas de tecido mole e exercício; a manipulação entra quando faz sentido para o seu caso e se você se sente bem com ela.
Quantas vezes pode manipular a coluna?
Não existe número fixo. Ao longo do tratamento a manipulação é usada cada vez menos, porque o objetivo é você depender cada vez menos das minhas mãos. Manipular toda semana por meses, sem exercício e sem mudança de hábito, não tem apoio na evidência.
Qual a diferença entre Osteopatia e Fisioterapia no tratamento?
A Osteopatia olha o corpo como um todo e procura o que está pesando na dor, inclusive fora do lugar que dói. A Fisioterapia cuida da progressão do movimento: a carga, o exercício e como seguir no dia a dia. Na consulta as duas andam juntas.
Referências
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- Deweber K, Olszewski M, Ortolano R. Knuckle cracking and hand osteoarthritis. J Am Board Fam Med. 2011;24(2):169-74. doi:10.3122/jabfm.2011.02.100156
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- Cleland JA, Flynn TW, Childs JD, Eberhart S. The audible pop from thoracic spine thrust manipulation and its relation to short-term outcomes in patients with neck pain. J Man Manip Ther. 2007;15(3):143-54. doi:10.1179/106698107790819828
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- Nim CG, Downie A, O'Neill S, Kawchuk GN, Perle SM, Leboeuf-Yde C. The importance of selecting the correct site to apply spinal manipulation when treating spinal pain: myth or reality? A systematic review. Sci Rep. 2021;11:23415. doi:10.1038/s41598-021-02882-z
- Rossettini G, Camerone EM, Carlino E, Benedetti F, Testa M. Context matters: the psychoneurobiological determinants of placebo, nocebo and context-related effects in physiotherapy. Arch Physiother. 2020;10:11. PMID 32537245
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- Coulter ID, Crawford C, Hurwitz EL, et al. Manipulation and mobilization for treating chronic low back pain: a systematic review and meta-analysis. Spine J. 2018;18(5):866-79. doi:10.1016/j.spinee.2018.01.013
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Quem escreveu
Leonardo Schneider, PhD
Fisioterapeuta desde 2009 e Osteopata diplomado, Mestre e Doutor em Saúde Coletiva (UFSC). Atende no Itacorubi, em Florianópolis, e por teleconsulta.
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