Dores · Cotovelo e tendões
Dor no cotovelo: epicondilite, cotovelo de tenista e o que fazer sem parar de jogar
Quase sempre é esforço repetido que cresceu rápido demais. E quase sempre dá para tratar sem sair de vez da quadra.

Em 30 segundos
- A dor no cotovelo quase sempre é esforço repetido que mudou de volume nos últimos meses: beach tennis, tênis, academia, mais horas em tarefas manuais ou no computador.
- Parte da dor pode vir do pescoço, da coluna torácica ou do ombro. Isso tem que ser avaliado.
- O tendão melhora com carga progressiva. Na maioria das vezes, dá para seguir jogando, com o volume regulado.
- A infiltração de corticoide alivia rápido, mas aumenta a chance de o problema voltar.
Dor no cotovelo, para mim, é esforço repetido. E geralmente um esforço repetido que teve uma mudança de volume próxima. Na avaliação de Osteopatia e Fisioterapia, em Florianópolis ou por teleconsulta, eu procuro o que mudou, o que mais está somando na dor, inclusive o pescoço e o ombro, e qual carga o seu tendão já consegue receber.
Por que o cotovelo dói?
Na grande maioria das vezes, a dor fica do lado de fora do cotovelo, onde se prendem os tendões que levantam o punho e firmam a pegada. É a epicondilite lateral, o "cotovelo de tenista". Do lado de dentro, é a epicondilite medial, o "cotovelo de golfista". O nome vem do esporte, mas a maioria das pessoas que chega não joga tênis profissionalmente.
O que elas têm em comum é uma mudança recente. Nos últimos meses, começou a jogar beach tennis. Voltou para o tênis. Aumentou o treino na academia. Passou mais horas em tarefas manuais ou trabalhando no computador. O tendão costuma reclamar justamente quando o volume de uso muda mais rápido do que ele consegue se adaptar1,2.
É inflamação?
O nome antigo, epicondilite, termina em "ite", de inflamação. Mas o que se encontra no tendão de quem tem dor há semanas é, principalmente, um tendão desorganizado, que perdeu parte da capacidade de receber carga, e não uma inflamação clássica3. Por isso hoje se fala em tendinopatia. E por isso o tratamento não é "apagar a inflamação": é devolver ao tendão a capacidade de aguentar o que você pede dele.
O cotovelo não trabalha sozinho
Estudar o pescoço e a coluna torácica, a interdependência regional, é fundamental no cotovelo. E é o que muitas vezes passa batido. Às vezes a pessoa está tratando um cotovelo que tem uma contribuição do pescoço, da torácica, da transição entre as duas. Num estudo, 70% das pessoas com dor do lado de fora do cotovelo tinham dor também na coluna cervical ou torácica, contra 16% de quem não tinha dor no cotovelo; os testes do nervo radial e do pescoço também doíam mais4.
Por isso, na prática, eu procuro primeiro os arcos e as interferências do pescoço e da torácica. Depois, as interferências do próprio ombro: às vezes tem alguma coisa da mecânica do ombro que sobrecarrega o cotovelo. É o olhar da Osteopatia: o corpo não se divide em pedaços. Se você está com dor no ombro também, escrevi sobre ele em dor no ombro.
Como é o tratamento do cotovelo
Começa gradualmente. Na fase inicial, a gente dá uma segurada: contorna o que se tornou o fator causal, aquele excedente, aquele crescimento rápido de um movimento. Diminui o volume do esporte ou da tarefa até você adquirir as valências para voltar.
Se a dor está muito forte, muito aguda, a gente pode começar com isometrias muito leves na região: força sem movimento, segurando a posição. Às vezes começamos fortalecendo outras áreas e trabalhando as interferências, no pescoço, na torácica e no ombro, antes de chegar no cotovelo.
Depois vem a carga progressiva no tendão: partindo da isometria e indo para a força lenta e pesada, o que em inglês se chama heavy slow resistance. Numa revisão de 30 estudos, o exercício teve resultado melhor que os tratamentos passivos e que a infiltração no cotovelo de tenista, embora a diferença não seja enorme5. O que faz diferença é a dose certa, na hora certa, e a consistência.
“Quando você voltar, vai ter que estar mais forte do que era antes. Porque antes já não deu conta daquela demanda.”
Posso continuar jogando?
Na medida do possível, sim. Voltar ao jogo o quanto antes é melhor. Antigamente, a gente afastava a pessoa da atividade. O tratamento era muito de repouso, de tirar a carga. Era muito frustrante: quem vinha do tênis ficava afastado, fazia o tratamento, voltava e voltava com o mesmo quadro.
Hoje a gente diminui e regula o volume, mas faz a reabilitação, na medida do possível, junto com a atividade, ou com algo próximo dela. A tendinopatia tem a ver com mudança de volume. Se você fica no zero, para chegar lá no alto de novo vai precisar de uma progressão bem lenta e cuidadosa. Se não fica no zero, mantém o tendão acostumado e reabilita antes. No tendão de Aquiles, por exemplo, quem seguiu correndo e saltando durante o tratamento, com a dor monitorada, teve o mesmo resultado de quem parou6.
O ajuste fino é pelo sintoma e pelas características de cada pessoa. E tem casos em que é preciso evitar a atividade no primeiro momento: quando a pessoa não consegue mexer em nada, está horrível, e qualquer aproximação piora muito. Mas não é a regra, e não é assim que eu trabalho.
Gelo e anti-inflamatório: ainda servem?
Quem jogava antigamente lembra: chegava na quadra e era aquele cheiro de Gelol. O pessoal tomava anti-inflamatório, esperava passar e voltava a jogar.
Hoje a gente procura diminuir ao máximo o anti-inflamatório. O corpo precisa de um certo grau de inflamação para remodelar os tecidos, principalmente os de pouca circulação, como o tendão. É a tendência das recomendações mais recentes para lesões de tecidos moles: deixar a inflamação fazer o trabalho dela e evitar o anti-inflamatório e o gelo como rotina7. Essa recomendação se apoia mais em estudos com animais e na lógica da recuperação do que em grandes estudos com pessoas: é prudência, não certeza.
Então a gente trabalha sem anti-inflamatório e com o mínimo de gelo: o mínimo que controle um pouco a dor, se controlar. Se não controla, nem usamos. Quando vale o gelo e quando vale o calor está em calor ou gelo?
Infiltração de corticoide e faixa no antebraço
Infiltração de corticoide. Alivia muito nas primeiras semanas. O problema vem depois: num estudo, um ano depois, quem recebeu a infiltração estava pior do que quem recebeu uma injeção de placebo, e a dor voltou em 54% das pessoas, contra 12%8. Em outro, de cada 65 pessoas que melhoraram com a infiltração, 47 voltaram a piorar9. Ela troca um alívio rápido por mais chance de o problema voltar.
Faixa no antebraço (a "tennis elbow band"). Eu uso assim: você coloca a faixa e testa no gesto que dói. Se a dor diminui dois pontos ou mais, numa escala de 0 a 10, para jogar ou fazer a sua atividade naquela hora, ela já é útil. Se não diminui, ou piora, não é útil para você. Os estudos vão na mesma linha: a faixa pode diminuir a dor na hora de apertar e segurar10, mas a longo prazo o exercício vai mais longe11. É um apoio para seguir na atividade enquanto o tendão se recupera, não o tratamento.
Quando a dor no cotovelo pede atenção imediata?
Na dúvida, pode vir. Na consulta, eu avalio esses sinais e, se algum pede outra investigação, encaminho para o médico certo.
Como é a avaliação do cotovelo com Osteopatia e Fisioterapia em Florianópolis
Começa pela história: quando a dor começou, o que mudou no volume nos meses anteriores, quais gestos doem e o que você deixou de fazer. Depois eu testo o pescoço, a coluna torácica, o ombro, o nervo radial e o próprio cotovelo: a força de pegada, os tendões, os gestos do seu esporte ou do seu trabalho. E procuro, ali mesmo, a carga que o tendão já aceita.
Você sai com a consulta gravada, com os exercícios, o volume de jogo ou de trabalho para as próximas semanas e como progredir em casa e na quadra. Também por teleconsulta.
Perguntas frequentes
Epicondilite tem cura?
O tendão recupera a capacidade de receber carga quando recebe o estímulo certo, por etapas, e muita gente volta a jogar e a trabalhar sem dor. O que muda a história é a carga bem dosada e a consistência, não o repouso.
Posso jogar beach tennis com epicondilite?
Na maioria das vezes, sim, com o volume regulado: menos jogos, menos tempo, e a dor monitorada no dia seguinte. Só nos casos em que qualquer gesto piora muito é preciso parar no primeiro momento.
Quanto tempo demora para melhorar?
Depende de quanto tempo a dor já dura, do volume que você precisa voltar a ter e da consistência no exercício. Tendão responde em semanas a meses, não em dias. Na avaliação eu explico qual é o tempo esperado para o seu caso.
Gelo ou anti-inflamatório ajudam?
Podem aliviar a dor, mas não tratam o tendão. A inflamação tem função na recuperação; por isso eu uso o mínimo de gelo, só para controlar a dor, e trabalho sem anti-inflamatório sempre que possível.
Infiltração de corticoide no cotovelo resolve?
Alivia rápido, mas aumenta a chance de o problema voltar: num estudo, um ano depois, a recaída foi de 54% com a infiltração e de 12% sem ela. Para a maioria das pessoas, ela não é o começo do tratamento.
A faixa para cotovelo de tenista funciona?
Teste: coloque a faixa e faça o gesto que dói. Se a dor diminui dois pontos ou mais (de 0 a 10), ela é útil para jogar ou trabalhar naquela hora. Se não diminui ou piora, não use. Quem trata o tendão é a carga progressiva.
A dor no cotovelo pode vir do pescoço?
Pode contribuir, sim. Pessoas com dor do lado de fora do cotovelo têm dor na coluna cervical e torácica com mais frequência. Por isso, na avaliação, eu testo o pescoço, a torácica e o ombro antes de chegar no cotovelo.
Posso começar o tratamento antes de ir ao médico? Preciso de pedido médico?
Sim, pode começar. A avaliação é marcada direto, sem pedido médico. Numa revisão de 21 estudos, o acesso direto ao Fisioterapeuta teve resultados clínicos semelhantes aos de quem passou antes pelo médico, com menos exames e remédios e sem sinal de mais riscos12. Se tiver exames, traga.
Qual a diferença entre Osteopatia e Fisioterapia no tratamento?
Na consulta eu uso as duas juntas. A Osteopatia olha o corpo inteiro e a vida que ele leva: o pescoço, o ombro, o trabalho, o esporte. A Fisioterapia cuida da progressão do movimento: qual exercício, com que carga, em que ritmo. Escrevi mais sobre isso em Osteopatia ou Fisioterapia: qual a diferença?.
O atendimento é por convênio?
O atendimento é particular. Alguns planos reembolsam parte do valor da consulta, cada um com a sua regra e o seu teto: consulte o seu plano. E por que poucas consultas costumam sair mais barato está em quanto custa fazer Osteopatia.
Referências científicas
- Kane SF, Olewinski LH, Tamminga KS. Management of chronic tendon injuries. Am Fam Physician. 2019;100(3):147-57. Link
- Cook JL, Purdam CR. Is tendon pathology a continuum? A pathology model to explain the clinical presentation of load-induced tendinopathy. Br J Sports Med. 2009;43(6):409-16. Link
- Khan KM, Cook JL, Kannus P, Maffulli N, Bonar SF. Time to abandon the "tendinitis" myth. BMJ. 2002;324(7338):626-7. Link
- Berglund KM, Persson BH, Denison E. Prevalence of pain and dysfunction in the cervical and thoracic spine in persons with and without lateral elbow pain. Man Ther. 2008;13(4):295-9. Link
- Karanasios S, Korakakis V, Whiteley R, et al. Exercise interventions in lateral elbow tendinopathy have better outcomes than passive interventions, but the effects are small: a systematic review and meta-analysis of 2123 subjects in 30 trials. Br J Sports Med. 2021;55(9):477-85. Link
- Silbernagel KG, Thomeé R, Eriksson BI, Karlsson J. Continued sports activity, using a pain-monitoring model, during rehabilitation in patients with Achilles tendinopathy: a randomized controlled study. Am J Sports Med. 2007;35(6):897-906. Link
- Dubois B, Esculier JF. Soft-tissue injuries simply need PEACE and LOVE. Br J Sports Med. 2020;54(2):72-3. Link
- Coombes BK, Bisset L, Brooks P, Khan A, Vicenzino B. Effect of corticosteroid injection, physiotherapy, or both on clinical outcomes in patients with unilateral lateral epicondylalgia: a randomized controlled trial. JAMA. 2013;309(5):461-9. Link
- Bisset L, Beller E, Jull G, et al. Mobilisation with movement and exercise, corticosteroid injection, or wait and see for tennis elbow: randomised trial. BMJ. 2006;333(7575):939. Link
- Heales LJ, McClintock SR, Maynard S, et al. Evaluating the immediate effect of forearm and wrist orthoses on pain and function in individuals with lateral elbow tendinopathy: a systematic review. Musculoskelet Sci Pract. 2020;47:102147. Link
- Shahabi S, Bagheri Lankarani K, Heydari ST, et al. The effects of counterforce brace on pain in subjects with lateral elbow tendinopathy: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Prosthet Orthot Int. 2020;44(5):341-54. Link
- Fischer M, et al. Systematic review of direct access physiotherapy for musculoskeletal conditions in primary care: consequences for general practitioner workload, resource use, and organisation of care. BMC Prim Care. 2026;27. Link
Quem escreveu
Leonardo Schneider, PhD
Osteopata D.O., Fisioterapeuta desde 2009, mestre e doutor em Saúde Coletiva pela UFSC. Atende no Clube ASTEL, sala 7, R. Eduardo Gonçalves d'Ávila, 150, Itacorubi, Florianópolis/SC, e por teleconsulta.
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Quanto custa fazer Osteopatia?
As consultas podem parecer caras, mas você economiza no tratamento.
Voltar mais forte do que era antes.
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