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Leonardo Schneider, PhD

Dores · Quadril

Dor no quadril: artrose, bursite, lombar ou impacto? O que fazer para seguir caminhando e agachando

Quase sempre começa antes da dor: o quadril vai deixando de dobrar, e a gente vai convivendo com isso.

Leonardo Schneider, PhDFisioterapeuta e Osteopata · CREFITO-10 nº 136902-FRevisado em outubro de 2026 · 10 min de leitura
Homem agachado bem fundo, descalço, em preto e branco

Em 30 segundos

  • O quadril costuma perder mobilidade antes de doer: calçar o sapato fica difícil, dobrar fica duro. É aí que vale agir.
  • Dor na frente da virilha costuma ser do próprio quadril. Dor atrás, na nádega, pede investigar também a coluna, os nervos e os músculos de trás.
  • O quadril precisa de carga, aos poucos: pouco ângulo primeiro, mais depois. A água ajuda a começar, mas não basta.
  • O sinal de melhora é dobrar cada vez mais o quadril, sem dor.

O quadril é uma estrutura que suporta carga. Ao longo da vida, ele pode não dar sinais importantes de dor, mas, à medida que você envelhece, vai perdendo capacidade, se não for cuidado. Na avaliação de Osteopatia e Fisioterapia, em Florianópolis ou por teleconsulta, eu procuro de onde vem a sua dor, se do quadril, da coluna ou dos músculos ao redor, e qual carga o seu quadril já consegue receber.

O quadril cobra a conta

O quadril é o que te dá capacidade de se locomover, de caminhar, de agachar, de ir ao banheiro sozinho lá na frente. E ele cobra a conta quando, mais velhos, a gente não deu atenção a ele.

Sempre começa do mesmo jeito. Agora eu já não dobro tanto. Agora eu já não consigo botar um calçado. Antigamente eu conseguia. E a pessoa vai convivendo com aquilo, convivendo com aquilo. Às vezes nem dói. Muitas vezes o quadril perde mobilidade simplesmente porque não é usado em toda a sua amplitude. Até a hora em que aparece a dor na frente da virilha. Não por acaso, perder a capacidade de dobrar e de girar o quadril para dentro está entre os critérios clínicos usados para reconhecer a artrose do quadril1.

Em vez de lutar ativamente contra isso logo no começo, a pessoa vai deixando. Lá na frente, já não consegue dobrar mesmo, já houve uma alteração estrutural importante, e o que sobra, às vezes, é uma prótese. O contrário também vale: uma pequena mudança hoje, como acrescentar um reforço muscular ou um comportamento novo, conta muito no seu envelhecimento. Conta na capacidade de seguir caminhando, agachando, pegando o seu neto no colo.

Dor na frente, atrás ou do lado: de onde ela vem?

Existe muita confusão entre o quadril e a lombar. A dor na frente, na virilha, é a mais típica do próprio quadril: é ali que costumam aparecer a artrose e o impacto femoroacetabular.

Quando a dor não aparece na frente e sim atrás, na nádega, eu sempre penso também numa relação com a coluna, com os nervos, com os músculos de trás do quadril. Nem sempre vai ser artrose. A própria articulação do quadril também pode doer na nádega: num estudo, isso aconteceu em 71% das pessoas com dor vinda do quadril2. Por isso a origem não se adivinha pelo lugar da dor. Ela se testa.

Um exemplo é a "síndrome do piriforme". É um diagnóstico que muita gente recebe, mas muitas vezes não é o piriforme: é a inervação que vem da lombar, ou uma irritação de outras estruturas atrás e do lado do quadril. Os próprios estudos sobre o piriforme ainda não sabem dizer com precisão quais sinais confirmam o diagnóstico3. Quando a dor desce pela perna, vale ler também sobre dor ciática.

E existe a dor do lado do quadril, a que muita gente conhece como bursite trocantérica. Hoje se sabe que, na maioria das vezes, o que dói ali é o tendão dos glúteos. Num estudo com 204 pessoas, educação sobre como dosar a carga no dia a dia mais exercício deram resultado melhor do que a infiltração de corticoide e do que esperar, em oito semanas e em um ano4.

O que o exame do quadril mostra, e o que não mostra?

O exame do quadril também assusta mais do que deveria. Numa revisão de 26 estudos com pessoas sem nenhuma dor, a média de idade era de 25 anos, e mesmo assim o formato de "impacto" apareceu em mais de um terço dos quadris, e uma lesão no lábio da articulação, em dois terços dos que fizeram ressonância5. São achados de quem vive e se mexe. O exame é lido junto com o que o seu quadril faz na avaliação: se você tiver, traga.

Como o quadril ganha força: carga, ângulo e consistência

O quadril, como o joelho, é estrutura que precisa de carga. O caminho é o enfrentamento gradual: começar com poucos ângulos, readquirir força, estabilidade e diminuição de dor, e depois ir ampliando os ângulos progressivamente. Na artrose do quadril, o exercício em solo reduz a dor e melhora a função, e o efeito se mantém meses depois de terminar o programa6. É o que as diretrizes colocam no centro do tratamento7.

Isso é o que você vai aprendendo em cada consulta: qual é o ângulo que vale a pena explorar, quais as formas de explorar, quais os ajustes, para conseguir se tornar independente do seu quadril. Muitas vezes o trabalho também passa pela lombar, pelo joelho e pelo tornozelo: o quadril não trabalha sozinho, e às vezes a dor no joelho vem dele.

“Se a cada semana você consegue dobrar mais o quadril sem dor, estamos ganhando espaço.”

E a hidroginástica?

Muita gente com dor no quadril ou no joelho é encaminhada logo para a hidroginástica. Ela tem coisas boas: mobiliza, lubrifica a articulação, às vezes trabalha a parte cardiovascular. Mas na água você tira o seu peso. Para tornar o quadril mais resiliente à força da gravidade, à sustentação do peso, à vida, ela é insuficiente. Pode parecer confortável no começo, mas não atinge as capacidades que precisamos reconquistar. Os estudos vão na mesma linha: o exercício na água traz uma melhora pequena e de curto prazo8. Ela pode ser uma porta de entrada, mas o quadril precisa voltar a receber carga em terra firme, aos poucos.

Dor no quadril precisa de cirurgia?

A filosofia é sempre a mesma: uma reabilitação muito bem feita, detalhada, de um profissional experiente, para ver se a evolução é de melhora do sinal comparável. Se cada vez você consegue dobrar mais o quadril sem dor, esse é o caminho. Se, pelo contrário, não há benefício e a dor não melhora, aí talvez seja hora de pensar numa cirurgia. E isso deve ser decidido com precisão, nos tempos corretos: o tempo necessário para tentar adquirir as capacidades, ou para desistir de adquiri-las.

Um dado ajuda a pensar. A quantidade de cirurgias muda muito de um país para outro. Entre os países da OCDE, o número de próteses de quadril por habitante variou 38 vezes, acompanhando a riqueza e o gasto em saúde de cada país9. Isso quer dizer que, muitas vezes, o problema não está só na pessoa: está no serviço. Há serviços mais dispostos a operar e serviços menos dispostos.

No impacto femoroacetabular de pessoas jovens, a artroscopia teve um resultado um pouco melhor que a Fisioterapia individualizada em um ano10; é uma decisão para tomar com calma, depois de um tratamento bem feito. Se o caminho for a prótese, vir antes ajuda: a pré-reabilitação deixa você chegar à cirurgia com mais força e mais movimento11. Se for cirúrgico, você vai saber rápido. Eu não enrolo.

Quando a dor no quadril pede atenção imediata?

Na dúvida, pode vir. Na consulta, eu avalio esses sinais e, se algum pede outra investigação, encaminho para o médico certo.

Como é a avaliação do quadril com Osteopatia e Fisioterapia em Florianópolis

Começa pela história: onde dói, na frente, atrás ou do lado, quando começou, o que piora, o que melhora e o que você deixou de fazer. Depois eu testo o movimento do quadril em todas as direções, a força dos glúteos e da coxa, as funções do dia a dia, como agachar, subir um degrau e calçar o sapato, e a lombar, para separar o que é do quadril do que vem da coluna. E procuro, ali mesmo, o ângulo e a carga que o seu quadril já aceita.

Você sai com a consulta gravada, com os exercícios e como seguir em casa, na academia e na caminhada. Também por teleconsulta.

Perguntas frequentes

Artrose no quadril tem cura?

O desgaste que aparece no exame não volta atrás. Mas a dor e a função podem melhorar muito: o exercício está no centro do tratamento, e o efeito se mantém meses depois. O objetivo é manter o quadril dobrando, caminhando e agachando pelo maior tempo possível.

Dor no quadril pode ser da coluna?

Pode. Principalmente quando a dor fica atrás, na nádega, ou desce pela perna, a coluna lombar e os nervos precisam ser investigados. Mas a própria articulação do quadril também pode doer na nádega. Por isso a origem se testa na avaliação, não se adivinha pelo lugar da dor.

Bursite no quadril: o que fazer?

Na maioria das vezes, a dor do lado do quadril vem do tendão dos glúteos. Educação sobre como dosar a carga no dia a dia mais exercício deu resultado melhor que a infiltração de corticoide e que esperar. Vale evitar, no começo, cruzar as pernas e ficar muito tempo apoiado num lado só.

Síndrome do piriforme existe?

Existe, mas é diagnosticada com mais frequência do que acontece. Muitas vezes a dor atrás do quadril vem da inervação lombar ou de outras estruturas da região. A avaliação testa a coluna, o quadril e os músculos antes de dar o nome.

Hidroginástica é bom para dor no quadril?

Ajuda a começar: mobiliza e lubrifica a articulação. Mas na água você tira o peso, e o quadril precisa voltar a receber carga em terra firme, aos poucos, para aguentar o dia a dia. Os estudos mostram efeito pequeno e de curto prazo para o exercício na água.

Quando a prótese de quadril é indicada?

Quando, depois de uma reabilitação bem feita, no tempo certo, o quadril não ganha movimento nem a dor melhora, e a limitação pesa na sua vida. Se for esse o caminho, fazer a pré-reabilitação antes ajuda na recuperação.

Posso começar o tratamento antes de ir ao médico? Preciso de pedido médico?

Sim, pode começar. A avaliação é marcada direto, sem pedido médico. Numa revisão de 21 estudos, o acesso direto ao Fisioterapeuta teve resultados clínicos semelhantes aos de quem passou antes pelo médico, com menos exames e remédios e sem sinal de mais riscos12. Se tiver exames, traga.

Dá para avaliar o quadril por teleconsulta?

Sim. Por vídeo eu faço a história e os testes de movimento: dobrar, girar, agachar, subir um degrau, apoiar numa perna só. Você sai com a consulta e os exercícios gravados, e sabendo como progredir em casa e na caminhada.

Qual a diferença entre Osteopatia e Fisioterapia no tratamento?

Na consulta eu uso as duas juntas. A Osteopatia olha o corpo inteiro e a vida que ele leva: a coluna, o joelho, o sono, o trabalho. A Fisioterapia cuida da progressão do movimento: qual exercício, com que carga, em que ângulo, em que ritmo. Escrevi mais sobre isso em Osteopatia ou Fisioterapia: qual a diferença?.

O atendimento é por convênio?

O atendimento é particular. Alguns planos reembolsam parte do valor da consulta, cada um com a sua regra e o seu teto: consulte o seu plano. E por que poucas consultas costumam sair mais barato está em quanto custa fazer Osteopatia.

Referências científicas

  1. Altman R, Alarcón G, Appelrouth D, et al. The American College of Rheumatology criteria for the classification and reporting of osteoarthritis of the hip. Arthritis Rheum. 1991;34(5):505-14. Link
  2. Lesher JM, Dreyfuss P, Hager N, Kaplan M, Furman M. Hip joint pain referral patterns: a descriptive study. Pain Med. 2008;9(1):22-5. Link
  3. Hopayian K, Danielyan A. Four symptoms define the piriformis syndrome: an updated systematic review of its clinical features. Eur J Orthop Surg Traumatol. 2018;28(2):155-64. Link
  4. Mellor R, Bennell K, Grimaldi A, et al. Education plus exercise versus corticosteroid injection use versus a wait and see approach on global outcome and pain from gluteal tendinopathy: prospective, single blinded, randomised clinical trial. BMJ. 2018;361:k1662. Link
  5. Frank JM, Harris JD, Erickson BJ, et al. Prevalence of femoroacetabular impingement imaging findings in asymptomatic volunteers: a systematic review. Arthroscopy. 2015;31(6):1199-204. Link
  6. Fransen M, McConnell S, Hernandez-Molina G, Reichenbach S. Exercise for osteoarthritis of the hip. Cochrane Database Syst Rev. 2014;(4):CD007912. Link
  7. Bannuru RR, et al. OARSI guidelines for the non-surgical management of knee, hip, and polyarticular osteoarthritis. Osteoarthritis Cartilage. 2019;27(11):1578-89. Link
  8. Bartels EM, Juhl CB, Christensen R, et al. Aquatic exercise for the treatment of knee and hip osteoarthritis. Cochrane Database Syst Rev. 2016;3:CD005523. Link
  9. Pabinger C, Geissler A. Utilization rates of hip arthroplasty in OECD countries. Osteoarthritis Cartilage. 2014;22(6):734-41. Link
  10. Griffin DR, Dickenson EJ, Wall PDH, et al. Hip arthroscopy versus best conservative care for the treatment of femoroacetabular impingement syndrome (UK FASHIoN): a multicentre randomised controlled trial. Lancet. 2018;391(10136):2225-35. Link
  11. Keogh JWL, et al. The effects of structured prehabilitation on postoperative outcomes following total hip and total knee arthroplasty: an overview of systematic reviews and meta-analyses of RCTs. J Orthop Sports Phys Ther. 2025;55(5):344-65. Link
  12. Fischer M, et al. Systematic review of direct access physiotherapy for musculoskeletal conditions in primary care: consequences for general practitioner workload, resource use, and organisation of care. BMC Prim Care. 2026;27. Link
Leonardo Schneider

Quem escreveu

Leonardo Schneider, PhD

Osteopata D.O., Fisioterapeuta desde 2009, mestre e doutor em Saúde Coletiva pela UFSC. Atende no Clube ASTEL, sala 7, R. Eduardo Gonçalves d'Ávila, 150, Itacorubi, Florianópolis/SC, e por teleconsulta.

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